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Pé no Futuro avança nas cinco regiões do país e já impulsiona os primeiros negócios de jovens participantes


Arthur (ao fundo, em pé, conversando com a mentora) participa da Nova Fase I do Pé no Futuro no Campus Rio Grande do IFRS, onde desenvolve um projeto voltado à modernização de instalações elétricas. Sobre o aprendizado construído até aqui, resume: “Eu tinha uma visão muito simplista de como era abrir uma empresa”

Programa piloto reúne novas turmas de formação empreendedora e projetos em fase de aceleração nos Institutos Federais

 Aos 13 anos, Kelvin Lieberman dos Santos de Oliveira, hoje com 19, vendeu o próprio videogame em sua primeira tentativa de empreender. “Eu sempre quis empreender”, conta o jovem de Rio Branco (AC), participante da Fase II do Pé no Futuro, no Instituto Federal do Acre (IFAC).

A cerca de 400 quilômetros dali, em Tarauacá (AC), a história de Mirnara Nogueira dos Santos (na foto acima), de 21 anos, com o programa começou diferente. Depois de concluir o Ensino Médio, interrompeu o sonho de cursar Engenharia Civil e quase deixou passar o edital de seleção quando viu, pela primeira vez, a divulgação nas redes sociais do IFAC.

Mirnara desenvolve uma plataforma de gestão para pequenos confeiteiros na Fase II do Pé no Futuro. Apesar de ter pensado em desistir durante a primeira etapa, seguiu em frente movida pela confiança no próprio projeto: “Eu tinha certeza que eu ia ganhar”

“Eu já tinha meio que aceitado a minha realidade”.

Uma amiga insistiu, e Mirnara mudou de ideia. Hoje, estrutura um sistema de gestão administrativa e financeira voltado a pequenos confeiteiros. Kelvin, por sua vez, desenvolve uma plataforma baseada em inteligência artificial para auxiliar professores e mediadores na adaptação de materiais didáticos para estudantes neurodivergentes. As trajetórias são distintas, mas ajudam a retratar o momento vivido pelo Pé no Futuro: enquanto a formação ocorre com novas turmas e os primeiros empreendimentos estão em fase de aceleração pelo país, o programa já produz transformações que vão muito além da realização de um curso ou da abertura de novos negócios.

Lançado no final de 2025 pelo Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP), em parceria com os Institutos Federais, o programa piloto é desenvolvido em etapas. Na Fase I, os participantes percorrem uma formação presencial voltada ao empreendedorismo, à construção do projeto de vida e ao desenvolvimento de soluções para problemas identificados em suas comunidades. Ao final, apresentam propostas de empreendimentos, individualmente ou em equipe.

Os projetos selecionados recebem premiação de R$ 20 mil para iniciar sua implementação e seguem para a Fase II, etapa em que são realizadas mentorias, presenciais e on-line, voltadas ao fortalecimento e à formalização dos negócios. Durante as Fases I e II, os participantes recebem auxílio mensal de R$ 600 reais. Já a Fase III é dedicada ao acompanhamento dos empreendimentos, por meio de relatórios de desempenho, sem concessão de auxílio financeiro.

O Pé no Futuro chega à metade da execução reunindo participantes em diferentes etapas de sua trilha empreendedora. Enquanto as novas turmas da Fase I contam com 194 jovens, outros 23 desenvolvem seus empreendimentos na Fase II, voltada à aceleração dos projetos selecionados. Até o momento, 178 participantes concluíram a primeira edição da etapa formativa. O programa é desenvolvido em 21 unidades de cinco Institutos Federais, presentes nas cinco regiões do país, e tem encerramento previsto para maio de 2027. O público-alvo são estudantes da rede pública e egressos de até 30 anos que não ingressaram no ensino superior.

 

Antes do negócio, vem o problema

Uma boa ideia nem sempre é suficiente para criar um negócio. No Pé no Futuro, ela também não é o ponto de partida. Antes de pensar em produtos, clientes ou faturamento, os participantes são convidados a olhar para a realidade à sua volta. A primeira etapa da formação parte da identificação de problemas presentes na comunidade para, só então, desenvolver soluções viáveis para responder a essas demandas. Ao longo da trilha, as propostas são testadas e aprimoradas.

Para a professora Gabriella Luiza Pereira de Sá, mentora das Fases I e II no Campus Serra Talhada do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE), essa mudança de perspectiva representa um ponto de virada para os participantes do programa. “Eu reforço muito isso com eles: o que está faltando na cidade de vocês? O que vocês vivem? O que os pais de vocês vivem? A descoberta do problema é justamente identificar algo da comunidade para propor uma solução”.

Segundo ela, as propostas amadurecem à medida que os jovens validam as ideias junto à comunidade e passam a observar a realidade local com outros olhos. “Depois da apresentação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [plano de ação global adotado pela Organização das Nações Unidas], eles passam a levar muito a sério a questão de resolver problemas da região deles”.

Pedro participa da Nova Fase I do Pé no Futuro no Campus Formosa do IFG. Desenvolve, com um colega, a ideia de uma plataforma para conectar profissionais de tecnologia ao mercado e diz que o programa ampliou seus horizontes: “Eu tinha uma noção muito superficial sobre o que era empreender”

Essa mudança já pode ser percebida entre os participantes da Nova Fase I. No Campus Formosa do Instituto Federal de Goiás (IFG), Pedro Lucas Rodrigues da Silva, de 16 anos, imaginava encontrar um curso predominantemente teórico. “Eu pensei que seria muito teórico, mas aqui é muito prático. Eles ensinam a gente a entender o problema, fazer pesquisas, conversar com outras pessoas para saber se aquele problema realmente existe”.

No Campus Rio Grande do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Arthur Duarte da Silveira, de 18 anos, também afirma ter mudado o que compreendia por empreendedorismo. “Eu sempre tive a visão de um prestador de serviço. Com o Pé no Futuro, eu tive que começar a pensar como um cliente”.

Embora ainda se encontrem na etapa de formação, para Pedro e Arthur o programa já modificou seus projetos profissionais e acadêmicos. Mais do que aprender a elaborar um modelo de negócio, passaram a compreender o empreendedorismo como uma ferramenta para resolver problemas, construir soluções e planejar o amanhã.

 

Quando o futuro muda de direção 

Entre os participantes selecionados para a Fase II, as transformações provocadas pelo programa tornam-se ainda mais evidentes. É nesse ponto que as ideias começam a ganhar forma, e os jovens precisam enfrentar os desafios reais de tirar um empreendimento do papel.

Foi durante essa etapa que Mirnara percebeu que sua trajetória também começava a tomar outros rumos. O plano inicial era abrir uma doceria. Ao longo da formação, porém, descobriu que o maior problema não estava na produção dos doces, mas no dia a dia de quem trabalha na área. Em vez de vender bolos, decidiu criar uma plataforma de gestão administrativa e financeira para ajudar pequenos empreendedores da confeitaria a organizar pedidos, clientes, produção e fluxo de caixa.

A mudança no projeto veio acompanhada de outras transformações. Pela primeira vez, passou a discutir desenvolvimento de software, planejamento financeiro, aspectos jurídicos e formalização de um empreendimento — assuntos que, até então, pareciam distantes da sua realidade.

Conciliar a nova rotina com a criação dos dois filhos também exigiu esforço. Para participar das atividades presenciais, percorria de bicicleta, à noite, os cerca de três quilômetros entre sua casa e o Campus Tarauacá. Parte do percurso, na época, sequer tinha iluminação.

Em vários momentos, pensou em desistir. Não desistiu. “A gente vai adquirindo conhecimento e percebendo que consegue ir além do que imaginava”.

Kelvin desenvolve, na Fase II do Pé no Futuro, uma plataforma voltada à adaptação de materiais didáticos para estudantes neurodivergentes. Sobre a participação no programa, comenta: “Eu consegui ter uma espécie de oportunidade de ouro, que eu estava planejando desde criança”

Se Mirnara viu no Pé no Futuro uma oportunidade de recomeçar, Kelvin encontrou nele uma direção para um sonho antigo. Quando um amigo lhe mostrou o edital, ele estava concluindo o Ensino Médio e prestes a iniciar a graduação. “Foi o encaixe perfeito. Eu estava acabando de sair do Ensino Médio, entrando na faculdade. Foi o timing perfeito”.

O empreendedorismo sempre fez parte dos seus planos. Desde criança, buscava maneiras de transformar ideias em negócios e aproveitava todas as oportunidades ligadas à inovação que surgiam no IFAC, onde cursou o Ensino Médio. Entrou no programa com um projeto já desenhado, mas não demorou para perceber que precisaria começar de outro lugar. “Uma coisa que me marcou muito foi entender que toda empresa nasce de um problema”.

A ideia inicial ficou pelo caminho. A nova nasceu dentro de casa. Ao acompanhar o trabalho da mãe, mediadora escolar de estudantes neurodivergentes, Kelvin passou a observar o tempo gasto na adaptação de materiais didáticos e as dificuldades enfrentadas por professores e mediadores para atender às necessidades de cada estudante. Foi dessa realidade que surgiu a proposta de desenvolver uma plataforma baseada em inteligência artificial para apoiar os educadores e tornar o processo mais ágil, acessível e individualizado.

Hoje, o projeto segue em desenvolvimento na Fase II, mas Kelvin acredita que a principal transformação aconteceu antes mesmo da tecnologia. Ele passou a enxergar o empreendedorismo como uma forma de resolver problemas concretos. E quer fazer isso sem deixar para trás o lugar onde tudo começou.

“Eu quero crescer, fazer a maior edtech [empresa de educação e tecnologia] do país. Honrar o Acre, honrar o país e honrar o Pé no Futuro também”.

 

O protagonismo como legado

As histórias de Mirnara e Kelvin ajudam a ilustrar um dos principais resultados observados pelos mentores e pela coordenação nacional do programa. Mais do que orientar a construção de empreendimentos, o Pé no Futuro tem estimulado os participantes a assumir um papel ativo na identificação de problemas e na construção de soluções para suas comunidades.

Professor do IFSP e mentor da Nova Fase I do Pé no Futuro, Aristides acredita que a principal transformação provocada pelo programa é a confiança dos participantes para levar suas ideias adiante. “Eles estão se sentindo à vontade para colocar o projeto na rua”

Para o professor Aristides Faria Lopes dos Santos, mentor da Nova Fase I no Campus Cubatão do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), esse talvez seja o maior legado da iniciativa.

“O protagonismo social é a grande sacada. A noção de que o jovem pode ser um agente de mobilização, um agente de fomento, de indução, pode ser um exemplo dentro da comunidade dele. Essa noção de protagonismo, de liderança, é uma novidade. Eles perceberem que podem interagir com a comunidade e mobilizar um processo semelhante é um ponto muito positivo”.

A avaliação é compartilhada pela coordenadora nacional do programa, Carolina Wiedemann Chaves, professora do Campus Farroupilha do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). Segundo ela, os resultados observados até aqui indicam que o piloto já começa a cumprir seu papel, ao mesmo tempo em que fornece aprendizados importantes para o aperfeiçoamento da própria metodologia.

“Por se tratar de um projeto piloto, o Pé no Futuro tem sido uma experiência muito rica em aprendizados. Ao longo da execução, conseguimos identificar oportunidades de aprimoramento, tanto na definição do perfil dos participantes quanto na escolha dos territórios e parceiros para a formação das turmas. Esses aprendizados serão fundamentais para fortalecer as próximas edições do programa”.

Além dos resultados já observados entre os participantes, a coordenação concentra agora esforços na consolidação dos empreendimentos, no acompanhamento das iniciativas e na sistematização das experiências construídas ao longo da execução. A expectativa é concluir o piloto com evidências que permitam validar a metodologia e reunir subsídios para sua ampliação como política pública de incentivo ao empreendedorismo e à geração de oportunidades entre jovens. Carolina também destaca o engajamento dos cinco Institutos Federais parceiros como um dos fatores determinantes para os resultados alcançados até o momento.

Para ela, no entanto, o principal resultado do programa não se mede apenas pelo número de estudantes que concluíram a formação ou de projetos que se encontram hoje em execução.

“Mais do que desenvolver conhecimentos sobre empreendedorismo, o programa tem despertado protagonismo, confiança e uma visão de futuro nos participantes”.

 

Sobre o programa

O Pé no Futuro é um programa piloto do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP) e da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC), executado em parceria com cinco Institutos Federais, que iniciou sua fase prática em dezembro de 2025. A iniciativa busca ampliar o acesso de jovens de até 30 anos ao empreendedorismo, com foco na construção de projetos de vida, na identificação de problemas dos territórios e no desenvolvimento de soluções inovadoras.

O programa é desenvolvido em três etapas. Na Fase I, os participantes recebem formação empreendedora presencial e estruturam propostas de negócio. Os projetos selecionados avançam para a Fase II, dedicada às mentorias especializadas, ao acompanhamento técnico e ao desenvolvimento dos empreendimentos. Já a Fase III prevê o monitoramento dos projetos e a avaliação dos resultados alcançados.

O piloto é realizado em 21 unidades, distribuídas entre Institutos Federais das cinco regiões:

  1. Instituto Federal do Acre (IFAC): campi Cruzeiro do Sul, Rio Branco, Sena Madureira e Tarauacá;
  2. Instituto Federal de Goiás (IFG): campi Goiânia Oeste, Itumbiara, Jataí e Formosa;
  3. Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS): campi Farroupilha, Restinga (Porto Alegre) e Rio Grande;
  4. Instituto Federal de São Paulo (IFSP): Centro Educacional Unificado Inácio Monteiro e campi Cubatão, Itaquaquecetuba e Suzano;
  5. Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE): campi Floresta, Ouricuri, Petrolina, Salgueiro, Santa Maria da Boa Vista e Serra Talhada.

Para informações, dúvidas ou sugestões, entre em contato com a coordenação nacional do programa pelo e-mail penofuturo.nacional@ifrs.edu.br.

Texto: Comunicação do Programa Pé no Futuro

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