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Estudantes do IFRS Bento Gonçalves conhecem bastidores da telecirurgia realizada entre China e Brasil
No IFRS Campus Bento Gonçalves, uma aula sobre processos e gestão ganhou uma dimensão pouco comum para estudantes do Ensino Médio Técnico em Administração: diretamente de um centro cirúrgico, o médico Dr. Norberto Martins conversou com estudantes do terceiro ano sobre cirurgia robótica, telecirurgia e os bastidores tecnológicos e organizacionais envolvidos em procedimentos realizados a milhares de quilômetros de distância.
A atividade foi conduzida pelo professor e pesquisador Jonatas Campos Martins, na disciplina voltada a processos e projetos, e teve como ponto de partida a repercussão internacional da telecirurgia realizada recentemente pelo médico entre China e Brasil — procedimento que ganhou destaque na imprensa nacional.
O gaúcho que operou da China
Em 20 de maio de 2026, Dr. Norberto conduziu, diretamente de Wuhan, a retirada da vesícula biliar de um paciente internado no Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre. A distância em linha reta entre os dois pontos era de aproximadamente 18.900 quilômetros, com transmissão realizada por redes de fibra óptica ao longo de quase 35 mil quilômetros de cabos. O procedimento entrou para a lista das telecirurgias de maior distância já realizadas no mundo e colocou o Rio Grande do Sul na vanguarda internacional da medicina robótica.
Poucos dias depois, o mesmo cirurgião conectou-se ao vivo com uma sala de aula em Bento Gonçalves para conversar com jovens do Ensino Médio Técnico sobre a tecnologia, os desafios e a dimensão organizacional por trás desse tipo de procedimento.
Dentro do console
Durante o encontro virtual, Dr. Norberto apresentou aos estudantes a estrutura completa de uma plataforma robótica cirúrgica, explicando o funcionamento do console do cirurgião, dos braços robóticos e dos sistemas de visão tridimensional utilizados durante os procedimentos. Ao demonstrar o equipamento diretamente do ambiente cirúrgico, o médico explicou como os movimentos realizados pelo cirurgião são reproduzidos pelo robô com alta precisão — inclusive em procedimentos remotos, nos quais o tempo de resposta do sistema precisa ser gerenciado em função da distância percorrida pelo sinal.
Os estudantes questionaram sobre vantagens da cirurgia robótica, custos, tempo cirúrgico, funcionamento dos equipamentos e desafios tecnológicos envolvidos. Em resposta, Dr. Norberto destacou aspectos como visão tridimensional com ampliação óptica de até dez vezes, instrumentos totalmente articulados que replicam os movimentos naturais da mão, filtragem automática de tremores, ergonomia para o cirurgião em procedimentos longos e possibilidade de utilização de recursos avançados de imagem em tempo real durante as cirurgias. Sobre o cenário de mercado, informou que já existem mais de 50 fabricantes de plataformas robóticas no mundo, com mais de 120 unidades instaladas no Brasil e mais de dez no Rio Grande do Sul.
A telecirurgia explicada para quem vai gerir processos
Outro ponto central da conversa foi a necessidade de planejamento e integração multidisciplinar para viabilizar procedimentos complexos, especialmente em telecirurgias. Segundo o médico, somente a operação realizada entre China e Brasil envolveu mais de 30 profissionais de diferentes áreas, incluindo equipes médicas, enfermagem, tecnologia da informação, apoio jurídico, marketing e gestão hospitalar. A discussão aproximou os conteúdos da disciplina da realidade prática da gestão em saúde: ao responder sobre a relação entre cirurgia robótica e processos organizacionais, Dr. Norberto enfatizou que nenhuma cirurgia é realizada sem planejamento detalhado, gestão de recursos, definição de protocolos e coordenação entre equipes.
Também foram abordados aspectos regulatórios e econômicos do setor. O médico mencionou que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) passou recentemente a exigir cobertura obrigatória para a prostatectomia robótica pelos planos de saúde, sinalizando uma tendência de maior acesso da população à tecnologia.
Uma trajetória que começou no Ensino Médio
Além dos aspectos técnicos, o encontro teve um caráter inspirador para os estudantes. Ao relatar sua trajetória profissional, Dr. Norberto falou sobre dedicação, formação contínua e desenvolvimento ao longo da carreira. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, destacou que a preparação permanente foi fundamental para alcançar atuação de referência na área. A formação em cirurgia robótica exige, por protocolo, 20 horas de simulador, observação de dez cirurgias, participação em outras dez e execução de mais dez sob supervisão de um cirurgião experiente — denominado proctor. Atualmente, Dr. Norberto acumula mais de 300 cirurgias robóticas realizadas e é ele próprio um proctor credenciado pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia e pela Associação Médica Brasileira, atuando também na formação de novos especialistas na área.
Para o professor Jonatas Campos Martins, a atividade demonstra como gestão, tecnologia, saúde e inovação estão cada vez mais interconectadas. Segundo ele, aproximar os estudantes de experiências reais e de profissionais que atuam na fronteira tecnológica mundial amplia a percepção sobre a importância da gestão de processos, do planejamento e da capacidade de atuação multidisciplinar — competências centrais na formação técnica em administração.
A atividade integra a proposta formativa do IFRS Campus Bento Gonçalves de aproximar o ensino técnico de contextos contemporâneos de inovação, conectando os conteúdos desenvolvidos em sala de aula com aplicações práticas e desafios reais da sociedade.


