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De estudante para estudante: confira a primeira entrevista da série que terá publicações semanais


Andreza Castro e Luísa Fellin

Começa esta semana uma série de entrevistas realizadas pelas turmas 131 e 111 com bolsistas ou ex-bolsistas do IFRS Campus Restinga. As entrevistas fazem parte do projeto “Conhecendo oportunidades de participação: o #MUNDOIFRS é 10”, proposto pelas professoras Juliana Battisti e Michele Mafessoni de Almeida, cujo objetivo principal é conhecer os projetos de ensino, pesquisa e extensão do campus para incentivar estudantes do primeiro ano a participarem dessas experiências desde seu ingresso na instituição. 

 

“O Audiovisual tem a essência do Lazer”

Entrevista com Ex-Bolsistas do IFRS

Entrevista realizada pelos estudantes da turma 131 do curso técnico de Lazer do IFRS Campus Restinga,  Tauani Kielen Claudino Mello & Bernardo Flores Weber

 

As ex-estudantes do IFRS Campus Restinga, Andreza Castro e Luísa Fellin, hoje, com 18 anos, cursam atualmente, Pedagogia e Ciências Sociais, na UFRGS.

Juntamente com alunos do curso de Lazer do IFRS, desenvolveram o projeto intitulado “Linguagem audiovisual como projetora de temáticas, relacionado ao curso de Lazer no Campus Restinga”, cujo objetivo era produzir documentários com diferentes temas, como: saúde mental, cursinhos populares na Restinga, dia das mulheres (NEPGS), práticas artísticas durante a pandemia, atividades de lazer das crianças dentro dos bairros e como a cultura delas é influenciada devido ao ambiente em que residem, e, por fim, sobre a descoberta do próprio ser. 

Experiências anteriores vividas durante o período no IFRS serviram como fontes de inspiração para os trabalhos realizados durante o projeto. Ambas participaram, em 2019, da Olimpíada de Língua Portuguesa, estudaram Eduardo Coutinho, assistiram a filmes da casa de cinema de Porto Alegre e fizeram oficinas sobre como elaborar um documentário. O documentário que realizaram em trio foi premiado com medalha de prata na Olimpíada de Língua Portuguesa. No evento intitulado “Mostra do IFRS”, no mesmo ano, o documentário em particular produzido por Luíza, Andreza e Giovana foi contemplado com o prêmio de melhor direção, roteiro, edição, trilha sonora e documentário, de todos os trabalhos submetidos à competição. 

Depois disso, as ex-estudantes ofertaram, em 2020 e 2021, oficinas de produção de documentário para os estudantes no IFRS. Tiveram de preparar todos os materiais e participaram ativamente de toda a produção dos filmes de vários estudantes. Hoje, depois de tudo que vivenciaram, pensam de uma maneira mais ampla e clara sobre sua participação, pois afirmam que fariam algumas coisas de forma diferente. Disseram que poderiam ter realizado algumas etapas com mais calma, dando  mais tempo para realizar todas as etapas das oficinas, melhorar a maneira de se comunicar com os estudantes e oferecer atendimento personalizado aos alunos, para, assim, ter uma melhor efetividade no  desenvolvimento do projeto.

Ambas acrescentam ainda que antes da pandemia, o setor de comunicação contribuiu com tripés para as filmagens. Durante a pandemia, o projeto teve uma “deficiência” na infraestrutura ao produzir as filmagens. Devido a isso, os estudantes tiveram de se adaptar com o que possuíam em suas casas para produzirem os vídeos.

As metas idealizadas pelas estudantes de conhecer os estudantes do IF e produzir filmes foram concluídas com sucesso.

 

A seguir, acompanhe a entrevista completa com as bolsistas Luísa e Andreza:

 

1- Sobre o desenvolvimento do projeto Linguagem audiovisual, conte-nos brevemente o caminho percorrido, da preparação do material a ser trabalhado até a realização do projeto com os alunos do IFRS Campus Restinga?

Bom, nós aproveitamos muitas coisas, tanto de material, quanto de experiências que vivenciamos na Olimpíada. Nos baseamos muito no material que a professora nos disponibilizou também. Quando foi o nosso momento, adaptamos algumas coisas do período online para o ensino presencial para que fosse trabalhado de uma maneira dinâmica, pois tínhamos pouco tempo. As explicações tornaram-se mais rápidas para que os alunos pudessem realizar as atividades. Apresentamos o documentário e a proposta da bolsa, falamos sobre as ferramentas que poderiam ser utilizadas, como: celular, editor básico e microfone de lapela. Continuamos aproveitando o material que já possuíamos, mas também produzimos novos e aplicamos as técnicas adquiridas com base em nossas experiências.

 

2- Qual impacto o projeto teve em relação a carreira acadêmica de vocês? 

Quando propusemos um documentário, uma pesquisa, uma escrita, nós propusemos também um trabalho em conjunto. Possui relação com nossos projetos atuais, pois independente da área que pudéssemos escolher atuar, ele agregaria muito ao curso que cada qual escolhesse, ou seja, de qualquer modo isso nos traria ganhos. Produzir um documentário é algo que possui muito potencial. Isso com certeza influenciou em minha escolha de graduação, e, atualmente, estou realizando um documentário para a disciplina chamada Instituição de Educação e Sociedade. 

 

3- Qual foi a primeira obra produzida por estudantes do bolsa? Como foi a experiência/sensação de ter produzido uma filmagem pela primeira vez?

Nós propomos um projeto para a turma inteira, para que eles realizassem em trios, assim, todos fizeram o projeto e enviamos esse documento para a Olimpíada, em nome da turma. Assim, caso houvesse uma próxima fase, a turma inteira passaria. Nós estávamos animadas para isso, porém, existia um lado ruim, por ser no período da pandemia, não poderíamos acompanhar de perto e isso fez muita diferença. Entretanto, o Whatsapp nos aproximou fortemente, pois poderíamos tirar algumas dúvidas em relação ao ângulo de gravação e ao corte das fotografias, por exemplo. Quando eu releio algumas conversas antigas ,vejo que nós fazíamos perguntas sobre o que os outros pensavam sobre uma certa ideia, isso é muito legal, pois víamos que os projetos estavam sendo pensados a partir de temáticas relacionadas ao lazer. Essa foi uma das características dos estudantes: terem autonomia e serem muito coletivos.

 

4- O projeto teve alguma obra incentivando a prática do lazer? Como o projeto contribuiu para a formação acadêmica dos técnicos em Lazer?

Acredito que o projeto trouxe o incentivo à prática do lazer por meio do ato de provocar reflexões nos alunos. Logo que iniciamos nosso trabalho, já na primeira aula que realizamos, uma das perguntas feitas aos alunos era a seguinte: O que tu gosta de fazer de lazer? Aí surgiram respostas como: gosto de ler, gosto mais de atividades intelectuais ou atividades ao ar livre. Tu fala lazer e logo pensa em atividades mais concretas. Quando comunicamos a eles que o lazer deveria estar inserido no documentário de cada um, o desespero tomou conta. Foi legal porque tivemos tempo de levá-los a refletir o lazer como direito, sobre como o lazer estava introduzido na cultura do bairro ou na cultura das próprias casas, ou, ainda, o lazer como uma cultura ou como uma prática.

Então, devido a isso, não existiu incentivo de uma prática em sí específica, mas acredito que persistiu o incentivo a explorar esse lado dos técnicos em Lazer, a projetar o pensamento e desenvolver o senso crítico sobre que é o lazer e analisar a realidade que os rodeia todos os dias.

 

5- Vocês tiveram apoio familiar para realizar o projeto? Isso incentivou ou desmotivou vocês em algum ponto?

Nós conquistamos muito apoio familiar, pois trabalhamos com muita dedicação e por muito tempo com trabalho voluntário, e trabalho voluntário não é algo fácil, nós trabalhávamos no projeto inteiramente por apoiar a ideia, acreditando na mesma e também pelo amor que desenvolvemos por ela. Acreditamos que não é possível sustentar algo por tanto tempo, como realizamos durante 3 anos, fazendo-se a ausência de remuneração. Permanecemos durante 3 anos, persistindo em tudo que se precisava para a realização, tentamos levar isso tudo para todos os lugares que nos era possível levar. Nós poderíamos discutir sobre o documentário e acredito que já tínhamos esse caráter de pessoas que sempre estavam metidas em tudo, acreditamos que nossa família já sabia disso. As duas famílias tinham essa vontade de querer incentivar nós duas a viver da melhor maneira possível nesse espaço que nos foi proporcionado que é o Instituto Federal e suas oportunidades de bolsa. Então nós duas sabemos que quando se está dentro do IF é para ver e viver algo que não é comum no ensino médio normal. É um incentivo a mais, por isso esse incentivo familiar todo. Depois de algum tempo a bolsa passou a ser remunerada, ou seja, seríamos valorizadas por algo que a gente já realizava, entretanto é um trabalho, então o apoio da família foi sim muito importante para que tudo fluísse e desse certo. A professora Juliana se tornou muito próxima de nossas famílias, fomos juntas para ir para São Paulo. Então, nossas famílias já tinham conhecimento dessa parceria e dessa oportunidade que foi de grande importância para o nosso aprendizado,  crescimento pessoal e intelectual.

 

6- Houve algo que mudou na vida pessoal de cada uma por causa do projeto?

Tudo fez parte da nossa construção pessoal. Quando estamos refletindo sobre a vida, falamos que é muito difícil dissociar o nosso eu profissional do nosso eu pessoal, ou nosso eu do IFRS com o eu da UFRGS, uma personalidade se associa a outra, é um processo muito mútuo. A experiência do documentário com certeza se potencializou com o desafio de mídia que foi realizado, em 2020. Foi outra competição em que participamos: a UFRGS proporcionou um projeto de análise midiática feita pelos alunos da FABICO, faculdade de comunicação da UFRGS por meio de oficinas e desafios realizados aos estudantes de escola pública no RS. Quando efetuamos  esse trabalho de mídia, tornou-se ainda mais evidente como participar do projeto nos fez instigar esse olhar mais crítico com os acontecimentos do dia a dia. Nunca mais veremos um filme do mesmo modo, um jornal da mesma maneira…agora pensamos o que dá para melhorar em relação ao que estamos assistindo, “ah, isso é algo que poderia ser transformado em um documentário”, “Se pudesse mudar um pouco o roteiro, faria de outro modo”. Passamos a analisar coisas de uma forma clínica, além de criticar também encontramos formas de intervenção. O audiovisual nos ajuda a perceber o mundo de outro ângulo, nos instiga e nos ensina a agir.” 

 

7-  Depois de já ter concluído o curso técnico em Lazer, tendo em vista a sua trajetória no instituto federal, o que o ifrs representa para você hoje?


Tudo!!! Vocês não tem ideia!!! Nós temos as camisetas do IF para usar durante os dias da semana e nós usamos essas camisas até mesmo em protestos. Quando eu saio para algum tipo de protesto e encontro alguém do IF, eu sempre falo “Você é do IF? eu também era”, sabe, eu tenho muito orgulho de ter estudado no IFRS e ter entrado na UFRGS. Todo momento eu estou falando “Gente, eu estudava no IFRS” e sobre as minhas experiências nele. Mas eu acredito que o que mudou na minha vida, e na de várias outras pessoas, é quem vai atrás das bolsas, quem procura algum projeto. O Desafio de Crítica da Mídia da UFRGS que motivou a gente a realizar este projeto foi a professora Juliana, foi ela  quem nos incentivou a fazer a bolsa de Audiovisual. Então, de uma certa forma, existe isso, sobre encontrarmos ela e ela nos incentivar. O IF nos proporcionou tudo, eu acredito que não é todo mundo que tem essa chance de ser bolsista como a Tauani, que já é bolsista no primeiro ano e, cara, que legal, tomara que ela continue desenvolvendo esses projetos, que ela continue se encontrando e produzindo. A gente nem tinha 18 anos e já tinha muita coisa publicada, até tínhamos que pegar autorização nos cartórios para irmos a São Paulo com a professora Juliana. Essas coisas não vão voltar. Ao chegar na UFRGS, vimos que os estudantes têm uma experiência diferente; às vezes o pessoal não sabe nem o que é bolsa. O IF em si já tem uma maneira de te dar uma autonomia, seja por meio dos estudos seja por meio das bolsas. Eu acredito que isso difere muito de outros colégios. Só de não ter que pedir permissão para ir ao banheiro já é outro nível. Assim, eu vejo os meus colegas, na universidade, pedindo para ir ao banheiro eles já tem sei lá quantos anos. Por mais que nós recebamos muito pouco, já é um pequeno investimento, já nos dava um empurrãozinho e isso é muito importante.

 

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