Geral
Novos mundos possíveis: estudantes e membros do Neabi refletem sobre alianças através da arte indígena em evento com Aílton Krenak
Estudantes, servidores ligados ao Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas e membros externos participaram, no dia 9 de março de 2026, de um evento com uma principais lideranças indígenas do Brasil, o filósofo, escritor e ativista Ailton Krenak. O grupo, composto por 34 pessoas, assistiu à aula inaugural do ano letivo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), intitulada “Ampliando alianças através da arte indígena”.
A mobilização do Núcleo para conseguir ingressos e transporte para a comunidade acadêmica se deu, segundo a coordenadora Maiara Alessandra Lopes da Silva, com o objetivo de oportunizar a participação em uma atividade inédita para o campus por “possibilitar o contato com um intelectual indígena contemporâneo importante, além de promover a reflexão e formação cidadã e educar para a diversidade étnico-racial, valorizando as contribuições sociais dos povos originários pela convivência com pessoas indígenas orgulhosas de sua cultura, o que fortalece a identidade dos nossos estudantes indígenas por aspectos positivos, em contraponto às narrativa das violências a que foram e ainda são submetidos”.
Ricardo Óliver Rubim de Almeida, estudante do segundo ano do curso Técnico em Informática, conta que as palavras de Krenak ecoam nas suas origens. Ele participou do evento com sua irmã Flávia, do terceiro ano do curso, e a mãe Talita Rubim de Almeida (Ukuatst’s ukuari ra utsu), que é membra externa do Neabi e indígena da comunidade Kokama Lua Verde – povo ribeirinho da Amazônia, na região da tríplice fronteira (Brasil, Colômbia, Peru). “Quando eu vou para eventos assim, com povos indígenas, eu me sinto muito incluído, em casa! É difícil viver em uma sociedade em que não há tanto espaço de fala, e ver um outro indígena conseguindo se expressar é muito reconfortante”, explica o jovem.
Ele e a irmã mantém vivos seus laços ancestrais pelo incentivo da mãe, que faz parte da liderança do povo Kokama em um dos seis Centros de Saberes de Manaus, que são espaços que perpetuam a cultura e a língua Kokama, atuando nos trâmites jurídicos e administrativos do grupo a qual pertencem. “O Ricardo e a Flávia fazem acompanhamento remoto em encontros mensais da nossa comunidade, para fortalecimento da nossa língua. Além disso, ao menos duas vezes ao ano mantemos contato direto com nosso povo, participando de mobilizações como o Acampamento Terra Livre e do Campeonato da Língua Kokama”, destaca Talita (Ukuatst’s ukuari ra utsu), que é auxiliar de biblioteca do município de Osório e também coordenadora o grupo de trabalho Braslind, instituído pela Unesco na Década das Línguas Indígenas, representando o centro de saberes do seu povo.
Os estudantes interagiram com lideranças indígenas presentes, tiveram livros autografados pela professor da universidade Bruno Kaingang, que mediava o evento e foi realizada a entrega de uma camiseta do Núcleo para a assessoria de Ailton Krenak. Como desdobramento da atividade, está prevista a realização de uma roda de conversa para socialização da experiência em um sábado letivo de abril – mês marcado pela celebração do Dia dos Povos Indígenas, no dia 19.
Imortal da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak, é autor de livros como Futuro Ancestral, A vida não é útil, O amanhã não está à venda e Ideias para adiar o fim do mundo, obras que reúnem conteúdos de suas palestras. Na UFRGS, o escritor e filósofo chamou à reflexão sobre a arte indígena como formar de se pensar e construir outros mundos, destacando a crise ambiental, a necessidade de estabelecer vínculos com a natureza, e o quanto os povos originários traduzem seus territórios em arte, como um instrumento privilegiado de comunicação com o outro, configurando-se em uma linguagem da diversidade.







