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Entre fronteiras e salas de aula: estudantes estrangeiros encontram no IFRS acesso à educação gratuita e oportunidade para recomeçar


Deixar a família para trás, recomeçar a vida em outro país e voltar à sala de aula. Para dezenas de estudantes estrangeiros do Campus Erechim do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), a educação pública brasileira tornou-se parte fundamental desse processo de reconstrução. Atualmente, a instituição conta com 29 deles, matriculados em cursos que vão desde o Ensino Médio até a graduação. Vindos principalmente da América do Sul, do Caribe e da África, eles trazem consigo experiências que ampliam a diversidade cultural do campus e revelam diferentes caminhos percorridos em busca de trabalho, educação e estabilidade social.

De acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), migrante é toda pessoa que se desloca de seu local habitual de residência, temporária ou permanentemente, por diferentes razões. No Brasil, são mais de dois milhões de imigrantes internacionais. Em Erechim, contabilizando apenas migrantes inscritos no Cadastro Único (CadÚnico) do Governo Federal, são mais de três mil, segundo dados de 2025.

Por trás desses números estão histórias de quem precisou deixar para trás a própria casa, a família e, muitas vezes, a profissão construída ao longo de anos. Em comum, encontraram na educação pública a oportunidade de iniciar outros projetos de vida.

A educação em um outro país

Gabenson, em aula no Laboratório de Informática

O haitiano Gabenson Pierre chegou ao Brasil há quase sete anos. Atualmente, trabalha como secretário executivo e cursa o técnico em Mecânica no campus. Para ele, uma das maiores diferenças entre seu país de origem e o Brasil está justamente no acesso à educação. “O Brasil dá para o povo educação gratuita. A maioria das escolas também é gratuita e nem todo mundo tem interesse em aproveitar as oportunidades”, observa. No Haiti, conta Gabenson, a maioria das escolas é particular. A possibilidade de estudar sem custos foi um dos aspectos que chamou sua atenção ao chegar ao país.

Entre os venezuelanos Jean Carlos Napolitano Flores e Luis José Gonzalez Salazar, a educação, ao lado da busca por emprego, também aparece como um dos principais motivos para migrar ao Brasil. Jean deixou a Venezuela há dez anos, passou sete deles no Panamá e chegou a Erechim em busca de trabalho. Licenciado em Pedagogia e ex-policial, precisou recomeçar a vida profissional por aqui.

Aos poucos, Jean começou a relacionar o curso escolhido com o trabalho em uma agroindústria de Erechim. Na foto, em aula prática no Laboratório de Análise Sensorial

Foi por meio da filha, Antonella, formada no técnico em Modelagem do Vestuário, que Jean conheceu o Instituto e decidiu ingressar no curso técnico em Agroindústria. Embora, em um primeiro momento, o curso não correspondesse exatamente ao que imaginava, aos poucos passou a se identificar com os conteúdos estudados, especialmente por sua conexão com a rotina de trabalho em uma grande agroindústria da cidade. “Eu não sabia o que envolvia o curso, e fui ganhando carinho porque, na verdade, estamos estudando algo que estamos trabalhando e temos a oportunidade de crescer dentro da empresa”.

Já Luis chegou ao Brasil há cinco anos. Inicialmente viveu em Roraima, mas decidiu migrar para o Rio Grande do Sul em busca de melhores oportunidades. “Eu decidi vir mais para o Sul pelas oportunidades, principalmente de estudo. Lá tem menos opção para estudar”, explica. Embora o Brasil não esteja entre os destinos mais procurados por muitos migrantes latino-americanos, especialmente em razão da barreira linguística, a facilidade para regularizar a situação migratória é apontada por ele como um diferencial importante para quem busca trabalho, estudo e estabilidade financeira. “Eu penso que é o melhor destino porque é o único país que você consegue os documentos de um modo gratuito”.

Luis e Jean, compatriotas venezuelanos. No Brasil, também genro e sogro

Hoje estudante do curso técnico em Mecânica, Luis, assim como Jean, busca conquistar, com a formação técnica, qualificação profissional e crescimento no mercado de trabalho. As semelhanças entre as trajetórias dos dois, porém, vão além da condição de migrantes e estudantes do IFRS. Ambos trabalham na mesma agroindústria e foi justamente em Erechim que Luis conheceu Antonella, filha de Jean. O relacionamento seguiu para o casamento, transformando compatriotas, colegas de trabalho e de estudos em genro e sogro. A ligação da família com a instituição se estende ainda à esposa de Jean e mãe de Antonella, Ledys, que também trabalha na mesma empresa e é colega de turma do marido no curso técnico em Agroindústria. “Ela me dá motivação e nós nos ajudamos mutuamente, nos apoiamos”, comenta Jean.

A história da família evidencia como os caminhos da migração, do trabalho e da educação podem se cruzar e criar novos laços longe dos países de origem.

Se o coração mandar…

Enquanto Gabenson, Jean e Luis chegaram ao Brasil impulsionados por processos migratórios familiares e econômicos, o estudante moçambicano Shelton Hélder Marques Xavier encontrou no IFRS a possibilidade de obter uma formação internacional completa. Natural de Maputo, capital do país, ele cursa Engenharia Mecânica por meio do Programa de Estudantes-Convênio (PEC), iniciativa do Ministério da Educação e do Ministério das Relações Exteriores que oferece vagas gratuitas em instituições brasileiras para estudantes de cerca de 70 países. De acordo com a Assessoria de Assuntos Internacionais do IFRS, atualmente 20 estudantes estão matriculados na instituição através do programa, sendo a maior parte ingressante em 2026.

Shelton foi o primeiro estrangeiro a ingressar no campus através do Programa de Estudantes-Convênio (PEC), em 2025

Antes de vir ao Brasil, Shelton já havia iniciado o mesmo curso em uma instituição privada. A mudança, porém, trouxe desafios inesperados. “Foi assustador. A questão de não encontrar uma casa, ficar muito tempo no hotel. Foi meio triste essa parte porque eu não imaginava isso”, relembra. A adaptação também passou pela sala de aula. Embora cursasse Engenharia Mecânica em seu país de origem, Shelton se surpreendeu com a forma distinta com que os conteúdos são trabalhados pelas duas instituições: “É muito diferente. A diferença não está no que é melhor e o que é pior, mas na abordagem do conteúdo. Eu achei que isso não fosse possível por ser, vamos supor, Física I. Física I lá e Física I aqui foram um bocadinho diferentes”.

Apesar da distância da família, Shelton avalia que a experiência de viver em outro país tem contribuído para seu crescimento pessoal. “Morar em outro país te desenvolve mais como pessoa. Além de sair da casa dos pais, tu sai de perto deles. Não podes simplesmente pegar um carro e ir visitar a família”.

A decisão de estudar no exterior também foi resultado de um longo processo de reflexão. Embora tenha recebido incentivo dos pais desde antes de ingressar na universidade, lá em Maputo, ele conta que precisou ter certeza de que a escolha fazia sentido para si próprio. “A ideia começou sendo deles. No primeiro ano [do curso em Moçambique], eu ainda não queria. Até que no segundo ano, nas férias de transição, eu comecei a abraçar mais essa questão de estudar fora. Então fui concorrendo em seleções até conseguir vir para o Brasil. Mas a pessoa tem que ter a certeza de que é a vontade dela, principalmente”.

Hoje, ao aconselhar outros jovens que cogitam estudar no exterior, Shelton destaca a importância da articulação entre a convicção pessoal e o diálogo familiar. “Se tu pretende estudar fora do país, segue o teu coração. Se o coração mandar, é só pegar as malas e despedir bem a família, pois pode não ter uma oportunidade de visitar nas férias, só depois do curso. Eu aconselho a pensar com calma, conversar muito com os pais pra ver qual é o posicionamento deles”.

O contato entre culturas

Luis deixou Roraima em busca de oportunidades. Em Erechim, encontrou trabalho, educação e constituiu família

Se a educação aparece como ponto de encontro entre as histórias desses estudantes, a adaptação cultural assume formas variadas. Gabenson destaca que uma das maiores dificuldades foi compreender as expressões linguísticas correntes por aqui. “O grande desafio que eu tinha era o fato da língua portuguesa ter muitas expressões, mas agora estou conseguindo evoluir de pouquinho a pouquinho”. Jean enfrentou dificuldades semelhantes e acrescenta outro elemento marcante: o frio da região. “O idioma é complicado no meu caso. No mais, o frio. Onde eu morava, não fazia frio”. Luis se diverte ao lembrar da descoberta das quatro estações do ano. “Eu achava que isso de ter as quatro estações era só em filme”.

Para Shelton, a familiarização com o idioma ocorreu de forma relativamente tranquila, já que Moçambique também é um país lusófono. As diferenças aparecem, segundo ele, sobretudo nas expressões regionais e na forma de falar. “O português é um pouquinho diferente só. Tem algumas gírias e algumas palavras que vocês usam de outro jeito, que eu acho que vocês falam ao contrário. Eu não sei se é impressão minha, mas vocês mudam a ordem das palavras. Isso eu até via em vídeo na internet, só que presenciar é um bocadinho mais diferente do que só ver no celular”, comenta.

Shelton é um dos poucos estudantes africanos do campus. Além dele, uma estudante egípcia, uma marroquina e um angolano estão matriculados na instituição. Para o jovem moçambicano, uma situação recorrente desde sua chegada ao Brasil está relacionada às perguntas que recebe sobre seu local de origem. Com frequência, precisa explicar que Moçambique é um país e que a África, assim como a América do Sul, é um continente formado por diversas nações, com culturas e realidades distintas. “Muitos vinham me perguntar de onde da África que eu vinha, como se a África fosse um país, então eu tinha que relacionar o Brasil aos Estados Unidos. Aí sim começavam a perceber que Moçambique está em África, mas é um país”.

A partir dessas conversas, Shelton também passou a compartilhar aspectos da cultura e da diversidade de seu país de origem. Segundo ele, Moçambique reúne diferentes povos, tradições e idiomas, assim como o Brasil apresenta características particulares entre suas regiões. “Moçambique tem muita cultura a ser conhecida, que até eu não conheço. Tem outras províncias. Digamos que seja o Brasil: tem a cultura aqui no RS, tem a cultura lá no Mato Grosso do Sul, tem a cultura em São Paulo. Então tem um bocado de tudo, tem uma variedade”.

Ao todo, 29 estrangeiros estudam no campus hoje. A maioria deles (16) têm nacionalidade venezuelana

As diferenças também aparecem na culinária. Enquanto Shelton sente falta de pratos preparados pela família e observa uma oferta reduzida de verduras na culinária local, Luis afirma que a adaptação à comida brasileira foi uma das etapas mais difíceis de sua experiência migratória. “Aqui tem uma cultura das coisas fritas, então uma das coisas mais difíceis pra mim foi aceitar a comida. Eu senti que as coisas perderam o sabor”.

Apesar dos desafios relacionados ao idioma, ao clima, à culinária e à distância da família, os entrevistados destacam a acolhida recebida no Brasil e as oportunidades encontradas em Erechim para seguir em frente. Em comum, dizem ter encontrado espaços de convivência, trabalho e estudo que contribuíram para sua integração à comunidade local. “As pessoas aqui são mais carinhosas, tratam bem as pessoas. Eu nunca vivi a experiência de preconceito”, observa Luis. Já Shelton destaca que atividades simples do cotidiano, como jogar futebol com moradores da cidade e frequentar a academia, contribuíram para criar amizades e amenizar a saudade da família.

De olho no amanhã

Apesar das origens distintas, os estudantes compartilham projetos semelhantes para o futuro. Jean  pretende concluir o curso técnico em Agroindústria e iniciar uma graduação, segundo ele, possivelmente na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). “Filosofia ou Ciências Sociais”, avalia. Já Luis resume um sonho cultivado desde a infância. “Um dos meus objetivos era chegar a um nível em que eu pudesse sentir orgulho e dizer: ‘Eu sou engenheiro’”. No próximo semestre, prestará o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pela primeira vez e, com ele, pretende passar mais alguns anos no Campus Erechim, mas como estudante de Engenharia Mecânica. Já Shelton, após terminar o curso, deve retornar a Moçambique em razão das regras do convênio, porém já expressa a vontade de voltar ao Brasil para trabalhar ou cursar um mestrado.

Histórias distintas, marcadas por idiomas, culturas e trajetórias migratórias diversas, mas unidas pela aposta de que a educação pode abrir caminhos e orientar recomeços. De diferentes locais de origem, esses estudantes ajudam a tornar o campus mais plural e lembram que, quando a educação atravessa fronteiras, ela também amplia os horizontes de toda a comunidade acadêmica.

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