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Razões para não desistir da docência é tema de palestra no Campus Ibirubá
Na manhã de 12 de fevereiro, o IFRS Campus Ibirubá recebeu o professor e pesquisador Altair Fávero, da Universidade de Passo Fundo, para uma palestra sobre o tema “por que não desistir da docência”. O encontro reuniu servidores em torno dos desafios e do futuro da profissão docente.
Logo no início, Fávero chamou atenção para uma contradição contemporânea. Muitas famílias se preocupam em garantir bens materiais aos filhos, mas deixam em segundo plano a formação humana e educacional. Para ele, essa inversão impacta diretamente a escola e o trabalho dos professores.
Desafios estruturais e a crise da docência
O palestrante destacou que vivemos a chamada Terceira Revolução Educacional, marcada pela ideia de que a escola é para todos. No entanto, esse paradigma ainda não se consolidou. Segundo ele, as instituições mantêm uma estrutura seletiva e não estão preparadas para acolher a diversidade de perfis. Há estudantes que desejam estar na escola e outros que não veem sentido nela.
“Se a escola for apenas para quem quer aprender, talvez o professor se torne dispensável, porque quem quer aprende até sozinho”, afirmou. A provocação reforça uma questão central: qual é o papel da escola se ela exclui justamente os que mais precisam?
Para Fávero, o grande desafio do professor é mostrar por que aprender é importante. Isso exige preparo, clareza de propósito e autoridade. Ele diferenciou autoridade de autoritarismo. Ter autoridade é orientar e agir para que o outro cresça. Ser autoritário é diminuir o outro. O professor precisa da primeira, nunca da segunda.
O docente também abordou o chamado mal-estar docente, conceito inspirado na definição de mal-estar em Freud. Trata-se de um sofrimento difuso. Algo não vai bem, mas o professor não consegue nomear exatamente o que é. Esse quadro, quando ignorado, pode evoluir para adoecimento e abandono da profissão.
“Apagão do magistério” e formação de qualidade
Outro ponto de alerta foi o chamado “apagão do magistério”. A ideia de que qualquer pessoa pode ser professor, segundo Fávero, enfraquece a profissão. Dados projetam que, até 2030, o Rio Grande do Sul poderá enfrentar déficit superior a 14 mil professores.
Para enfrentar esse cenário, ele defendeu duas frentes: é preciso querer ser professor e investir em formação sólida. O palestrante criticou a lógica que prioriza quantidade de diplomas em detrimento da qualidade dos cursos. Atualmente, apenas cerca de 20% dos docentes são formados em cursos presenciais, o que levanta questionamentos sobre as condições de formação inicial.
Fávero também lembrou que países tecnologicamente desenvolvidos fizeram, antes de tudo, um investimento consistente em educação de qualidade. A inovação, afirmou, começa pela sala de aula.
Ao tratar da natureza da escola, foi direto: escola não é empresa e aluno não é cliente. As finalidades são distintas. A instituição de ensino não pode “demitir” estudantes com dificuldade de aprendizagem. Sua missão não é gerar lucro, mas formar pessoas.
Por isso, reforçou que a educação deve ser compreendida como direito, não privilégio. Quando deixa de ser pública, tende a se tornar acessível apenas a quem pode pagar. O público, concluiu, precisa ser tratado como bem comum.
A palestra no IFRS Campus Ibirubá reforçou a centralidade do professor para o desenvolvimento social e evidenciou que valorizar a docência é condição para garantir o futuro da educação.