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O algoritmo que disputa sua atenção: como as redes sociais podem influenciar a ansiedade na adolescência


Escrito por Paola Michelle Picoli, graduanda em Engenharia Mecânica do IFRS Campus Erechim
Orientador: Prof. Dr. Eloi Pereira
Revisão: Profa Dra. Noemi Luciane dos Santos
Crédito da foto em destaque e dos gráficos: Paola Michelle Picoli

São 13h30 de uma tarde de semana. Um estudante pega o celular e abre uma rede social pensando: “Vou assistir apenas alguns vídeos para relaxar antes de revisar os conteúdos da escola.” Ele começa a rolar o feed, passando rapidamente de uma publicação para outra. O que parecia ser uma pausa de poucos minutos se transforma em duas horas. Quando olha para o relógio novamente, já são 15h30.

O tempo reservado aos estudos desapareceu. Os trabalhos continuam pendentes e a sensação de tranquilidade dá lugar à preocupação. Ao abrir os livros, ele percebe que a concentração já não é a mesma. Os pensamentos se acumulam, a ansiedade aumenta e estudar parece muito mais difícil do que algumas horas antes.

Embora fictícia, essa situação faz parte da rotina de muitos adolescentes. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil, 83% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos possuem perfil em redes sociais. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com os impactos dessas plataformas sobre a saúde mental dos jovens.

Dados do Ministério da Saúde e de pesquisas nacionais apontam aumento na procura por atendimento relacionado ao sofrimento psíquico entre adolescentes, acompanhando uma tendência observada em diversos países. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também destaca a ansiedade e a depressão entre os transtornos mentais mais frequentes nessa fase da vida.

Mas qual é o papel das redes sociais nesse cenário?

Como os algoritmos disputam a atenção?

Por trás das redes sociais existem algoritmos responsáveis por selecionar os conteúdos exibidos para cada usuário. Esses sistemas analisam curtidas, comentários, compartilhamentos e o tempo gasto assistindo a vídeos ou visualizando publicações. Com base nesses dados, as plataformas recomendam conteúdos semelhantes aos que despertaram interesse anteriormente, mantendo o usuário conectado por mais tempo.

Esse modelo está ligado ao conceito de economia da atenção, no qual o tempo dos usuários se transforma em um recurso valioso para as empresas de tecnologia. Quanto maior o tempo de permanência na plataforma, maior a exposição a anúncios e, consequentemente, maior o lucro gerado. Para alcançar esse objetivo, as redes sociais utilizam mecanismos que estimulam o interesse contínuo dos usuários, como notificações, vídeos curtos e recomendações personalizadas.

Quando exatamente o algoritmo encontra a ansiedade?

Especialistas apontam que curtidas, comentários e notificações podem ativar sistemas de recompensa do cérebro relacionados à sensação de prazer e reconhecimento social. Na adolescência, período em que o córtex pré-frontal1 ainda está em desenvolvimento, esses estímulos podem ter impactos mais significativos.

Em entrevista, a mestre e doutora em Psicologia Fernanda Zatti explica que esse impacto não depende apenas do tempo de uso das redes sociais, mas também de quem é esse adolescente, do tipo de conteúdo consumido, da forma como interage nas plataformas, do contexto familiar e escolar e de vulnerabilidades emocionais prévias. Segundo ela, a adolescência já é, por definição, um período sensível do desenvolvimento emocional e social, marcado pela construção da identidade e pela busca por pertencimento.

Nesse contexto, as redes sociais passam a influenciar diretamente a maneira como o jovem percebe a si mesmo e acredita ser visto pelos outros. Além disso, a exposição constante a conteúdos que mostram versões idealizadas da vida de outras pessoas favorece comparações sociais. A busca por validação, o medo da exclusão e a pressão para manter uma imagem positiva nas redes podem contribuir para sentimentos de ansiedade e insegurança.

De acordo com a especialista, uma das principais consequências desse processo é a comparação constante entre a própria realidade e aquilo que é exibido nas redes sociais. Ao comparar o próprio corpo, rotina, conquistas e estilo de vida com conteúdos cuidadosamente selecionados por outras pessoas, muitos adolescentes passam a experimentar sentimentos de inadequação, baixa autoestima, insatisfação corporal e a sensação de estarem “ficando para trás”. Ela também destaca que curtidas, comentários, visualizações e compartilhamentos podem deixar de ser apenas interações e passar a funcionar como sinais de reconhecimento ou rejeição, tornando alguns jovens emocionalmente dependentes da validação obtida nas plataformas.

Outro aspecto apontado pela psicóloga é o impacto sobre o sono, a atenção e a rotina. O uso prolongado das redes sociais, especialmente durante a noite, pode comprometer a qualidade do sono, prejudicando a regulação emocional, a memória, a aprendizagem e a concentração. Além disso, quando as plataformas passam a ocupar grande parte do tempo livre, atividades importantes para o desenvolvimento dos adolescentes, como convivência presencial, prática de exercícios físicos, leitura, lazer e momentos de descanso, acabam sendo reduzidas.

A relação entre redes sociais e ansiedade, portanto, é complexa e não pode ser explicada apenas pelo tempo de uso das plataformas. O problema envolve fatores emocionais, sociais e tecnológicos que interagem de maneira diferente para cada indivíduo. Os próprios algoritmos também podem contribuir para intensificar esse processo.

Segundo a psicóloga, essas ferramentas são projetadas para selecionar conteúdos com maior probabilidade de manter o usuário conectado, e não necessariamente aqueles mais benéficos para seu bem-estar. Quando um adolescente demonstra interesse por publicações relacionadas à aparência física, dietas, tristeza, conflitos ou rejeição, por exemplo, o sistema tende a recomendar cada vez mais conteúdos semelhantes.

Esse mecanismo pode criar um efeito de amplificação. Um jovem inseguro com a própria aparência passa a receber continuamente imagens de padrões estéticos; um adolescente ansioso pode ser exposto repetidamente a conteúdos alarmistas; e alguém que se sente excluído pode visualizar constantemente fotos de festas, grupos e experiências das quais não participa. Como consequência, a percepção da realidade pode se tornar distorcida, reforçando a impressão de que “todo mundo vive melhor”, “todo mundo é mais bonito” ou “todo mundo é mais feliz”.

Por isso, a entrevistada ressalta que a discussão não deve responsabilizar apenas adolescentes e famílias. Segundo ela, existe também uma dimensão estrutural, já que as plataformas digitais são desenvolvidas para capturar a atenção dos usuários por meio de notificações, rolagem infinita, reprodução automática de vídeos e recomendações personalizadas. Nesse cenário, educação digital, transparência dos algoritmos e maior responsabilidade das empresas de tecnologia tornam-se elementos importantes para proteger crianças e adolescentes.

Apesar dos riscos, a psicóloga ressalta que as redes sociais não devem ser vistas apenas como vilãs. Elas também podem favorecer o sentimento de pertencimento, a criatividade, a aprendizagem, o acesso à informação e a manutenção de vínculos sociais. O problema surge quando deixam de ser uma ferramenta e passam a determinar a autoestima, o humor, o sono, os relacionamentos e a percepção de valor pessoal dos adolescentes.

Qual seria a mensagem final?

A relação entre redes sociais e ansiedade vai muito além do tempo gasto em frente às telas. O problema está na interação entre algoritmos projetados para capturar atenção e adolescentes que ainda estão em processo de desenvolvimento emocional e cognitivo. Em uma fase da vida marcada por inseguranças, busca por pertencimento e construção da própria identidade, a comparação constante, a necessidade de validação e o excesso de estímulos podem potencializar sentimentos de ansiedade.

Como destaca a psicóloga entrevistada, o sofrimento dos adolescentes não pode ser explicado por uma única causa. Redes sociais, relações familiares, ambiente escolar, expectativas sobre o futuro e características individuais interagem entre si, tornando a saúde mental um fenômeno complexo. Segundo ela, o maior desafio da atualidade é construir ambientes mais protetivos e menos adoecedores para os jovens, evitando tanto minimizar seu sofrimento quanto considerar qualquer dificuldade emocional como um transtorno.

Apesar de tudo, as redes sociais não são vilãs, mas também não são neutras. Elas podem aproximar pessoas, ampliar o acesso à informação e favorecer a criatividade, mas também foram projetadas para disputar a atenção dos usuários e estimular sua permanência nas plataformas. O desafio, portanto, não é eliminar a tecnologia do cotidiano, mas aprender a utilizá-la de forma consciente, equilibrada e crítica.

Talvez o maior perigo não esteja apenas nas horas perdidas rolando uma tela, mas no que pode ser perdido durante esse tempo: concentração, qualidade do sono, convivência, autoestima e tranquilidade. Em uma sociedade cada vez mais conectada, desenvolver educação digital, fortalecer vínculos presenciais e criar hábitos saudáveis são caminhos importantes para preservar a saúde mental das novas gerações.

1 Córtex pré-frontal: região localizada na parte frontal do cérebro responsável pelo planejamento, controle dos impulsos, tomada de decisões e regulação das emoções. Seu desenvolvimento costuma se completar apenas no início da vida adulta.

Referências bibliográficas:

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